Um acidente numa estrada secundária
Segundo o comunicado do Ministério da Saúde, "concluiu-se que as intervenções do Instituto Nacional de Eemergência Médica, através do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), a acção do Centro de Saúde de Odemira e o acolhimento no Hospital de Santa Maria foram correctos e cumpriram as normas e orientações de serviço".
O comunicado adianta que "nos vários momentos de intervenção foram proporcionadas as medidas de estabilização apropriadas, sem as quais o sinistrado nem sequer teria condições para suportar a viagem" e "após a admissão no Hospital de Santa Maria, efectuados exames que revelaram múltiplos focos de contusão cerebral, a vítima foi sujeita a craniotomia descompressiva de que resultou normalização da pressão intracraniana".
O ministério admite que "a gravidade do acidente e a distância a que ele ocorreu de um centro hospitalar com capacidade de intervenção neurocirúrgica, condicionaram, sem dúvida, o tempo que mediou entre a ocorrência e a entrada no hospital de destino", mas ressalva que "não existe, todavia, evidência de que esse lapso de tempo, bem como as manobras entretanto executadas pudessem ter influenciado o desfecho fatal, o qual se deveu essencialmente à gravidade das lesões iniciais".
O comunicado conclui que o Ministério da Saúde passou em revista as "circunstâncias de baixa densidade populacional e longa distância que condicionam a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde em situações de urgência/emergência naquela região", sem adiantar o que em termos práticos vai ser revisto.
Lembramos quer a descrição do sucedido, quer a cronologia que publicamos, onde os detalhes desta desastrosa operação de socorro, que segundo o Ministério da Saúde obedecem às normas e seguiu os procedimentos correctos, são relatados e comentados.
Muitas considerações podem ser feitas, seja em relação ao sucedido, seja a um comunicado que é, na nossa opinião, absolutamente inaceitável dado tentar justificar a falta de socorro através de "circunstâncias de baixa densidade populacional e longa distância" que terão impedido a chegada atempada da vítima a um centro onde estivessem disponíveis os recursos necessários ao seu tratamento.
No entanto, de uma gravidade extrema, é o facto de se aventar a possibilidade de, mesmo que o socorro fosse feito atempadamente, a vítima poder vir a falecer, algo que, devido ao sucedido, jamais poderá ser desmentido, mas que revela uma perspectiva demasiado perigosa e insensível para qualquer abordagem política.
Todos sabemos que, em caso de acidente grave, existirá sempre a possibilidade de, mesmo com o melhor socorro do Mundo, a vítima vir a falecer, mas admitir a perda de vidas humanas como consequência de uma decisão de carácter económico que condena parte da nossa população a um permanente risco, sem que o Estado garanta uma das suas funções básicas, é algo que nos recusamos a aceitar.
Lamentavelmente, mais uma vez, tudo aponta para que a culpa morra solteira, no que parece tornar-se uma prática corrente em Portugal.
Sem comentários:
Enviar um comentário