quinta-feira, abril 13, 2006

Combate aos incêndios é caro e ineficaz


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Bombeiro num helicóptero da Força Aérea

A Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) defende que a actual estrutura voluntária de combate aos incêndios florestais, mesmo com a componente de contratação de grupos de primeira intervenção, "continua a ser a opção mais económica".

Em reacção à notícia do Diário de Notícias de ontem, segundo a qual teria havido uma duplicação dos encargos com pessoal e aquisição de equipamentos pelas corporações de bombeiros voluntários durante a última década, a LBP considera que com uma estrutura profissional os custos triplicariam.

A Liga estima que, este ano, os cerca de 4.000 bombeiros a contratar para os três meses de Verão, cada um dos quais irá receber 40 euros por dia, vão custar ao Estado um total de cerca de 17.000.000 de euros.

Infelizmente, mais do que os custos globais, é a eficácia do sistema de voluntariado no combate aos fogos que está em causa, quando confrontado com as negras estatísticas que apontam para uma área florestal queimada incompatível com este esforço financeiro.

A criação de um grupo de 300 elementos pertencentes à GNR, o Grupo de Intervenção, Protecção e Segurança (GIPS) para constituir brigadas helitransportadas, que irão operar nos distritos de Faro, Viseu e Coimbra, foi mais uma decisão recente do Governo que criou celeuma com os voluntários e continua a ser particularmente contestada.

Desta forma, o Governo manifestou que não ficou satisfeito com o dispositivo usado nos anos anteriores, o qual estava assente nas corporações de bombeiros voluntários, considerando que o reforço de uma força que, pelo seu estatuto, julga ser mais controlável, poderá ser mais eficaz, não obstante a falta de experiência dos seus elementos.

A comunidade científica também tem feito alertas para os elevados custos do combate e prevenção sem que se vislumbrem efeitos positivos, dado que, tal como referimos, a maioria dos estudos tem sido ignorada sempre que obriga a algum investimento público.

No final do ano passado, investigadores do Instituto Superior de Agronomia salientavam que entre 2000 e 2004 se tinham gasto 479.000.000 de euros em prevenção e combate aos incêndios, o valor mais elevado da Europa, sem que se verificasse uma relação custo-benefício, e apelavam para que se seguissem os modelos de outros países, como a Espanha ou França "que souberam transformar anos trágicos e catastróficos em oportunidades de mudança".

Com efeito, os restantes países mediterrânicos têm apresentado melhorias significativas na eficácia do combate aos incêndios florestais, fruto de várias mudanças estruturais que passaram, quase sempre, por uma maior profissionalização.

Nos cinco anos mais quentes da última década, concretamente 1998, 2005, 2002, 2003 e 2004, de acordo com dados da Organização Mundial de Meteorologia, apenas em Portugal se registou um crescimento da destruição causada pelos fogos, em relação aos anos mais amenos.

Assim, enquanto no nosso país ardeu 2.7 hectares por quilómetro quadrado de território na média desses anos, em Espanha foi de apenas 0.3 e na Itália de 0.2, enquanto na França e na Grécia nem se chegou aos 0.1 hectares por quilómetro quadrado.

A menor eficácia no combate torna-se muito evidente nas comparações com Espanha, país que, sobretudo a partir de 1995, apostou na profissionalização da prevenção e combate.

Mesmo tendo um território mais de cinco vezes superior a Portugal, no país vizinho ardeu sempre menos no último quinquénio e em todos os indicadores fundamentais de eficácia, a Espanha apresenta muito melhores resultados.

Por exemplo, nos últimos cinco anos, os espanhóis apenas contabilizaram 137 incêndios com mais de 500 hectares, enquanto em Portugal houve 296.

Destes, em Espanha apenas um superou os 20.000 hectares, enquanto no nosso país se registaram seis, dos quais dois com mais de 35.000 hectares.

Também os reacendimentos, ou seja, fogos em que o rescaldo foi ineficaz, são têm piores consequências no nosso país.

No último quinquénio, em Espanha, por cada 1.000 ocorrências 12 fogos reacenderam-se após a intervenção dos bombeiros, enquanto em Portugal esse valor foi de 41, e, por exemplo, no distrito de Leiria chegou aos 106, o que representa uma taxa de reacendimento de quase 11%.

Estes dados são obviamente preocupantes, e falta apontar algumas soluções concretas que evitem o alto número de incidências e de reacendimentos, muitos dos quais evoluem para situações de extrema gravidade.

Já mencionamos, ao longo dos meses em que nos debruçamos diariamente sobre esta problemática, um conjunto de sugestões, muitas das quais foram enviadas às entidades competentes, mas a um mês do período crítico, praticamente nada foi implementado, enquanto parece haver uma campanha pública que afecta a imagem dos bombeiros voluntários, eventualmente na perspectiva de antecipar responsáveis em caso de falta de sucesso na próxima campanha.

Na actual conjuntura financeira, o investimento na profissionalização pode ser impossível, mas é necessário inovar em termos tecnológicos, de modo a rentabilizar os meios existentes, maximizando a sua eficácia.

Entre decisões adiadas, falta de consenso e incerteza quanto ao dispositivo existente, nomeadamente em termos de efectivos, continuamos com graves dúvidas relativamente ao sucesso da campanha que se avizinha, temendo que os resultados finais sejam tão trágicos como os dos últimos anos.

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